Colóquio Internacional

Amanhã, em Lisboa, vai realizar-se o primeiro Colóquio Internacional de Estudos Japoneses em Portugal dedicado especificamente à relação entre a Era dos Descobrimentos e as problemáticas da Globalização. O acesso a este colóquio é totalmente livre e gratuito, e não se limita a alunos da instituição de ensino no qual o mesmo se realiza. Noto ainda que estarão presentes, pela primeira vez em Portugal, nomes muito relevantes no panorama académico japonês.

coloquio cham

coloquio cham 2

Para aceder ao cartaz em PDF: Cartaz_CrossroadsCulturesFirms

Quanto à minha comunicação, agendada para as 15.30h, revelo aqui no blog o seu resumo.

Challenges in Identity and Territory:

from the visual culture of memory to the status of “heritage”

Key Words: Identity, Territory, History, Religion, Tourism

Core concepts in Western Philosophy such as Identity, Memory and History have never been considered to suit phenomena taking part in Japan as much as Japanese ideas about living treasures, reconstructing monuments and non-linear time have been scarcely used in arguments about European or even American culture. However, as the logics of cultural management and territory planning took a turn to a more global frame – the so called “glocal” issue – the need to reflect upon new problems made scholars and professionals seek out-of-the-ordinary schemata, questioning frontiers between disciplines and academic traditions. Fields of research that used to be very far from each other, anthropology and art history in one hand, international relations and politics in the other, found themselves face to face in more than one particular type of “heritage”. The visual culture of both places and people got intertwined with tourism practices to the point of being necessary to discuss what the commodity is and what is the identity, not neglecting the ability to “imagine” a community but going beyond that: finding strategies to develop low-populated regions, deal with aging, keep the pace in security challenges, take a grasp on religious narratives and crate a safe environment for native or foreign minorities.

Mergulho Nipónico

Para “apimentar” o canal de youtube criei uma nova série de pequenos vídeos. Ok, o primeiro é uma espécie de “dois em um” e por isso tem quase meia hora, mas os outros vão ser mais curtos, prometo!

Não me esqueci do “Momentos Matcha” mas isso requer fazer coisas ao ar livre e o clima tem estado péssimo… Tanto o “Momentos Matcha” como o “Mergulho Nipónico” ser publicados com regularidade durante o Verão, quando as actividades de workshops e cursos estiverem interrompidas. Não vos ía deixar sem nada para fazer, não é?

A antecipação do lançamento da série “Mergulho Nipónico” deveu-se a um desafio que me lançaram da parte da Escola Superior de Educação de Coimbra, pois um grupo de alunos vai realizar um evento com cultura japonesa amanhã e eu passei estes últimos tempos a ajudar nos preparativos. Este primeiro Mergulho Nipónico terá a sua estreia com audiência nesse evento, o que é sempre mais interessante porque me permite ver a reacção das pessoas (enquanto o youtube é uma espécie de “mandar para o espaço” e nunca sei bem se gostam ou não…). Também lá vou estar claro, a proporcionar momentos de degustação, com os meus bombons de Matcha e com chás variados, mas como é um evento dentro da Escola não poderei fazer uma reportagem extensa.

Apresento-vos o primeiro “Mergulho Nipónico”: podem ver aqui .

Estes vídeos abrem com um toque de comédia e surrealismo, e depois continuam com uma colagem de vídeos de reputação impecável e conteúdo aprovado – por mim pelo menos. O meu trabalho consistiu essencialmente na selecção, edição, montagem e colocação de legendas em português. O objectivo foi criar conteúdos de boa qualidade e que possam realmente ser usados como suplementos pedagógicos, nomeadamente para serem vistos em aula e comentados entre os professores e os alunos. Também por isso foram legendados, já que os alunos mais novos não são necessariamente proficientes em inglês, e muito menos em japonês.

Os primeiros quatro Mergulhos Nipónicos já estão feitos, mas aceitam-se sugestões e pedidos de temas para os próximos. Já sabem, é só escrever para umlongoveraonojapao@gmail.com

Entrevistas a Cosplayers

A Mostra Nacional de Banda Desenhada trouxe a Coimbra o mundo da BD, da animação e do cosplay. Aproveitando a oportunidade para ficar a conhecer melhor quem se dedica a esta arte fui visitar a Mostra munida de câmara e tive a sorte de encontrar os cosplayers mais simpáticos do mundo!

Veja a primeira parte das entrevistas aqui. A segunda parte está aqui. E em breve irei publicar mais!

1001 palavras

“Uma imagem vale mais do que mil palavras” é uma expressão que já entrou para o nosso dia-a-dia, apesar de a origem ser chinesa e alegadamente de Confúncio. No entanto o seu uso no Ocidente perverteu parcialmente a moralidade subjacente, já que na origem a expressão remetia para a questão da escrita ideográfica e a ligação entre as imagens propriamente ditas e as palavras escritas. Assim, cá por estas partes do mundo, a expressão passou a ser mais ou menos o mesmo que um grito de guerra em defesa das imagens e implicitamente contra os excessos de discurso, como se as imagens fossem mais puras, mais autênticas, mais carregadas de verdade do que qualquer palavreado poderia ser.

Para mim, que para além de historiadora de arte (com uma paixoneta forte por museus e colecções) também escrevo e descrevo com o uso da palavra, esta rivalidade mal resolvida nunca me cativou. Nem uma imagem vale mais ou menos que mil palavras, nem as palavras e as imagens são coisas assim tão diferentes. A imagem (como o nosso querido pintor dos cachimbos já mostrou) é ela própria uma construção narrativa – ainda que não verbal – de discurso, e nenhuma imagem é a realidade em si. Por outro lado, tanto as palavras como as imagens servem a necessidade humana de representar uma impressão que se teve da realidade ou uma ideia que emergiu na mente. Em potência, são ambas comunicação e expressão, e toda a maravilha da arte e da literatura veio depois disso. E mesmo, se me perdoarem o atrevimento, o bom jornalismo.

Mas, claro, uma coisa é discorrer sobre isto e aquilo, e outra é pôr o nosso nome e cara em jogo. Quando comecei a fazer exposições das minhas próprias fotografias, a escrever os meus próprios livros, a dar aulas com as minhas próprias ideias sobre arte, objectos e imagens, a coisa ficou mais, digamos, pessoal. Ao apresentar uma leitura sobre as imagens estava claramente a tornar as imagens em cadeias verbais, a atribuir significados e tudo o mais que elas, só elas, não tinham. Quem me ouvia/lia naturalmente poderia ignorar tudo isso e criar a sua própria interpretação, algo perfeitamente legítimo, mas não seria nunca exactamente o mesmo sem a sugestão/confrontação/aceitação ou recusa da palavra em si, que neste caso lhe estava a chegar por mim. Pôr imagens nas palavras (quando tinha uma teoria a demonstrar) ou palavras nas imagens (quando estava a interpretar ou analisar o que eu via como sendo o seu conteúdo) passou a ser não só uma grande parte do meu trabalho mas também uma fonte de inquietação filosófica. Eu estava a meter-me no domínio do cachimbo e não tinha bem a certeza se essa era a minha praia…

Ainda assim é uma viagem sem retorno, da qual não me arrependo e que todos os dias renovo. Ainda não explorei tudo o que há para fazer nesta aventura de procurar “ler” as imagens – sobretudo as fotografias do Japão ou de arte – e também ainda não cheguei propriamente a uma conclusão no ramo da Antropologia Visual que me permita apresentar um método ou uma tese. Deve ser realmente confuso para quem me lê que eu não tenha nenhum critério do que é o certo e o errado na leitura de uma imagem, pois parece ser essa a preocupação do rol de académicos (e parte da explicação de eu não ter lá muito reconhecimento junto dos mesmos…). A verdade é que me interessa muito mais o processo de descoberta, o espaço que vai de “o que é isto?” até às respostas que obtenho, e depois ir por aí a apresentar a minha proposta sem querer também converter ninguém ou apresentar dogmas. Nas minhas exposições eu mostro as imagens como portas para muito mais do que elas, objectivamente, mostram. Mas também não digo que não se possa intuir e sentir tanto ou mais pela contemplação atenta e sem a bengala da visita-guiada. As coisas que as pessoas vêm nas imagens interessa-me bastante, e é com grande gosto que as oiço (pena que geralmente os visitantes sejam tímidos e os alunos calados), retenho o que elas tiveram a amabilidade de partilhar comigo e não raras vezes acabo por o apontar para reflexão futura.

O que eu não suporto mesmo são os fundamentalismos, sobretudo se forem disfarçados de cientificidade. Do género “isto é isto porque se vê aqui que sim”. Qual é o problema de estender o discurso, de contextualizar a situação, de questionar? Vou dar um exemplo que pode ofender algumas crenças de estimação: os documentários. Amigos, os documentários são discursos como os outros, pode dizer-se o que se quer num documentário e arranjar gravações para o ilustrar. Os documentários, e aliás também as fotografias dos jornalistas, não são isentos de selecção, edição, e contextualização. E nem sequer estou a falar de ferramentas digitais de manipulação de imagem, é muito mais simples do que isso. A mera escolha de certas imagens – paradas ou em movimento – e a arte de as tecer com certas frases pode criar produtos que vão do propagandístico à mentira descarada, passando pelo inocentemente desinformado, pelo equivocamente infundado, e por muitos outros tipos de não-fez-o-trabalho-de-casa disfarçados de outras coisas.  Eu procuro alertar para isto tendo em consideração que eu própria fiz uma-espécie-de-documentário (o do Património de Cristianismo no Japão) contra as visões homogéneas e falseadas de muitos documentários e reportagens que vi por aí.

Mas não quero acabar este artigo com o tom de quem faz investigação em Portugal. Vamos voltar às imagens, à oportunidade que nos dão de fazermos essa pergunta que começou tudo e que começa tudo em cada novo dia: O que é isto? No fundo, é como quando voltávamos a fotografia para ver o que estava escrito por trás, e tudo o que vem depois…

As imagens inundam-nos, a tecnologia ao nosso dispor parece fazer esquecer que podemos maravilhar-nos com elas e com as perguntas que elas nos sugerem, mas podemos. E se a inquietação filosófica for um efeito colateral, que seja bem vindo.