Entrevistas a Cosplayers

A Mostra Nacional de Banda Desenhada trouxe a Coimbra o mundo da BD, da animação e do cosplay. Aproveitando a oportunidade para ficar a conhecer melhor quem se dedica a esta arte fui visitar a Mostra munida de câmara e tive a sorte de encontrar os cosplayers mais simpáticos do mundo!

Veja a primeira parte das entrevistas aqui. A segunda parte está aqui. E em breve irei publicar mais!

Entrevista a Tiago Espírito Santo, autor do blog Tiago in Tokyo

Tiago Espírito Santo é o autor de um dos melhores blogues sobre portugueses a viver no Japão (um tema que tenho explorado nos últimos anos para fins de investigação académica). O blog “Tiago in Tokyo” é no entanto uma coisa à parte, poética mas ao mesmo tempo com uma dose de concreto que nos desarma, cuidado mas sem o verniz de blogues “de vitrine”, com toneladas de conteúdo e uma visão muito pessoal. Realmente um blogue de viagem, tanto porque a conta como porque a proporciona a quem lê.

Em seguida transcrevo partes da entrevista que fiz ao Tiago em 2011, a qual acabou por não ser integrada em nenhuma publicação mas que ainda assim é um pedaço de leitura e de partilha interessante. Já que a forma de escrever do autor é uma parte importante da sua identidade acabei por não alterar praticamente nada, para além da edição dos excertos.

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Fui para o Japão através do Programa INOV-Contacto. Fui seleccionado para o estágio e na fase de formação ainda em Portugal, quando ainda não se sabem os destinos, lembro- me que tinha 5 destinos preferidos: Austrália, Cabo Verde, Chile, China e Japão. Quando “saiu” o Japão fiquei muito contente com a possibilidade e tinha de a aproveitar.

Em 300 estagiários, fui o único a ser enviado para o Japão e penso que o meu CV influenciou essa opção pois eu lá faço (sic) referencia ao meu fascínio por viagens, choques culturais, experiências exóticas, etc. Posso dizer que me adaptei com muito à vontade à cultura japonesa. Finalmente poderia combinar com amigos e não ser eu o único a chegar a horas… A bolsa era de 9 meses e incluía o transporte e um subsídio mais do que suficiente para a vida em Tóquio.

Tive aí uns dois meses para me preparar antes da ida para o Japão. Em relação ao idioma comecei logo a estudar sozinho… através de livros de bibliotecas, cursos on-line, livros “sacados” da net, etc. E um dia estava eu em Coimbra telefona-me um amigo a dizer-me para eu aparecer no campo de futebol da AAC/OAF, do outro lado do rio, porque estava a ver um treino da Academica dos estudantes e havia um japonês a treinar e uma senhora japonesa a ver o treino com uma bandeira japonesa.E foi assim que fiz os meus primeiros amigos japoneses, Sumiko-san, que vive há muitos anos em Coimbra, e o Kosuke, que estava a estudar português em intercambio. Por coincidência, a Sumiko-san conhecia muito bem uma das senhoras com quem eu iria trabalhar em Toquio (na Agência do AICEP) e, claro, convidei-os para vir jantar a minha casa e foram-me dando uns conselhos sobre a vida em Tóquio.
Comecei logo a ler Wenceslau de Moraes e tudo o que podia sobre o Japão.

Na altura lembro-me que li Wenceslao e um livro chamado Sushi Bar (que não me satisfez muito)… Wenceslao era como uma viagem no tempo, ao Japão antigo. Era fascinante. Sobre, por exemplo, Sushi Bar, eu não queria preparar-me para o choque cultural por isso acho que deixei o livro sem ter terminado o primeiro capítulo. Queria estar virgem de saber o que outros portugueses que tinham ido recentemente ao Japão tinham sentido… Queria descobrir por mim próprio, sem ter observações condicionadas. Ler Wenceslao foi também começar a descobrir a relação antiga entre Portugal e Japão, e como o Japão é um país que obriga a uma certa “conformização” de costumes, ou seja, ou se aceita como se lá vive e se fazem as coisas, ou então é melhor desistir, porque tentar alterar uma cultura milenar tão forte é, arrisco, impossível. É o tal provérbio japonês: “o prego que sobressai, logo será amassado…”

Objectivos a partida… ia absorver ao máximo a cultura, toda a experiência cultural. Lembro-me que estava muito tranquilo com a ida. Parecia-me como um deja-vu muito grande, algo natural que me estava a acontecer na vida.

Sabia que ia trabalhar numa área que não era a minha (formado em Multimédia, ia fazer estudos de mercado para a Embaixada Comercial de Portugal…) e umas das minhas intenções era poder conseguir ter trabalhos mais criativos, o que acabou por se realizar dentro do estágio no AICEP, além de que neste estágio pude trabalhar com pessoas com quem aprendi muito, em termos de metodologia e exigência de trabalho. Enfim, afinal estava no Japão. E eu que sempre fui brioso, estava nas sete quintas…

Queria também conhecer o Japão rural, viajar, conhecer por dentro a cultura, e tudo isso foi acontecendo naturalmente. Até hoje, ainda não conheci uma casa onde me tenha sentido tão em casa como quando vivia no bairro de Kagurazaka, em pleno centro de Tóquio, que parece uma viagem no tempo. Se há imagem que terei guardada na memória até ao fim da vida foi a do dia em que chegando a casa sob uma chuva miudinha, passou por mim na minha rua uma gueixa (só nesse bairro existem em Toquio) caminhando com as sandálias pokkuri e um chapéu de chuva antigo, amarelo, e foi uma imagem mágica que me provocou tamanha adrenalina que mal consegui dormir nessa noite.

Aprendi muito do “gaman-suru”, “ganbatte!”, de lutar sempre e sempre pelo que queremos. Aprendi que se deve pensar bem antes de falar, organizar o pensamento antes de verbalizar. Os japoneses são mestres em pensar antes de fazer. Atingir o perfeccionismo profissional… Também acho que até certo ponto a cultura de manter o ambiente calmo num grupo é saudável, em vez de um ego tentar sobressair e destruir uma equipa.

A simplicidade estética japonesa também me marcou. Acho que é wabisabi? A impermanência das coisas, o minimalismo de menos é mais para chegar ao belo e à paz. E muitas coisas mais… Estar num lugar e vir para outro altera a nossa percepção do lugar onde chegamos. Chegar do Japão a Portugal foi certamente muito diferente de chegar da Colômbia a Portugal, como fiz recentemente. Os dois “Portugais” que encontrei são diferentes.

Lembro-me que cheguei a Portugal no Inverno e era-me muito estranho caminhar nas ruas de Coimbra, de Lisboa… Sentia-me muito estrangeiro, como sempre, aliás, mas mais ainda vindo do Japão. Lembro-me de ter a distância de ver um povo de braços em baixo, triste, pobre e acabrunhado, carregando nos ombros emoções melancólicas e pouco mexido. Voltar a Portugal foi também voltar à falta de pontualidade e desorganização…