Os rostos e os rastos que (n)os ligam

A grande-história e a pequena-história têm formas muito interessante de se relacionarem, e muitas vezes é um singelo “fio” que puxa pela meada, até percebermos quantas pessoas e lugares diferentes estão envolvidos. Este será por isso um post invulgarmente longo, e também invulgarmente pessoal, feito de gratidão e de maravilhamento. Pois, também na produção da ciência (conhecimento) há a felicidade, de vez em quando, de sentir em primeira mão essa conexão entre as vontades de pessoas espantosas.

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Num dos nossos Clubes de Leituras do Oriente (o de Novembro de 2017, que podem revisitar aqui) tratámos o livro “O Samurai”, de Shusaku Endo. A obra foi escolhida depois de, numa edição anterior do Clube, termos trabalhado o livro “Silêncio”, que foi escrito antes de “O Samurai” e que, apesar de ficar famoso em Portugal depois do filme, continua pouco compreendido no geral. No livro “O Samurai”, a personagem principal é modelada a partir dos eventos da vida de uma personagem histórica real: Hasekura Tsunenaga. Este vassalo do Senhor Feudal Date Masamune (o daimyou de Sendai) e toda a sua comitiva estiveram efectivamente envolvidos numa daquelas viagens épicas da história da humanidade. E, ao prepararmos os conteúdos para essa sessão, um outro livro e um outro conjunto de pessoas veio ao encontro deste Projecto Cultural e Pedagógico também. O que é espantoso, e ainda mais por ser autêntico e actual, é que esse conjunto de pessoas são indivíduos de hoje, numa terra a umas meras 5 horas de carro, e que são directa e geneticamente relacionados com os eventos que inspiraram Sgusaku Endo a escrever “O Samurai”. Aliás, se o escritor tivesse tido disto conhecimento creio que teria escrito mais um livro…

Quando a “Embaixada Keichou” finalmente chegou a terras de Espanha (para se informar da viagem completa consulte aqui) , em Outubro de 1614, foi numa pequena povoação chamada Coria del Rio que estacionaram durante alguns dias, antes de uma entrada formal na cidade de Sevilha. E é precisamente em Coria del Rio que, nos anos 80 do século XX, começa a tomar forma um movimento de associativismo cívico – primeiro muito informal e depois com cada vez mais apoios do município, entre todos os habitantes que têm no seu nome de família o apelido “Japón”. Sim, com efeito a pequena localidade que dava entrada aos meandros do rio (via obrigatória para chegar a Sevilha), desenvolveu-se durante 400 anos sem perder a ligação àquela comitiva: os seus descendentes sempre mantiveram o sobrenome “Japón”.

A Associação que entretanto de formou estima que existam mais de 1000 pessoas com “Japón” até ao 3º nível de parentesco, e existem registadas mais de 500 com “Japón” em nome próprio ou num dos pais. A abundância de pessoas que têm “Japón” da parte do pai e também da parte da mãe comprova ainda mais o facto de, em Coria del Rio, existir uma circunstância peculiar de ascendência japonesa que se foi mantendo. Do ponto de vista da identidade cultural dos habitantes de Coria del Rio isso também é notório, desde já porque a sede de governo local tem a bandeira do Japão hasteada, e também porque há muitos outros marcadores do espaço público e eventos culturais que remetem para o Japão. Mas tudo isto foi um processo, longo aliás, já que dura há pelo menos 30 anos de forma organizada. E, mais recentemente, em 2014, foi realizado um projecto artístico, focado na fotografia/retrato, para documentar todas as pessoas com o apelido “Japón”.

Essa exposição fotográfica poderia ter ficado apenas em Coria del Rio, ou quanto muito ter chegado em forma de relato ao Japão, já que há muitos japoneses que visitam a localidade espanhola devido a esta história que os liga. Mas, também neste caso, a sinergia não cessou. A energia desta viagem épica do século XVII ainda se sente no modo como os encontros se multiplicam e as iniciativas se sucedem.

Na bela cidade alentejana de Vila Viçosa pode também sentir-se o impacto da passagem de uma embaixada japonesa daquele período histórico, que aliás precedeu a de Kenchou a Espanha. No caso da Embaixada Tenshou – a que passou por Portugal – as circunstâncias foram muito diferentes, e não houve lugar a descendência que se saiba. Contudo, tal como no caso de Coria del Rio, estas embaixadas tiveram um grande impacto e deixaram vestígios documentais que, já no século XX/XXI, vieram a ser “redescobertos” por intelectuais interessados e de visão larga. Assim, os livros produzidos, habilmente redigidos e divulgados junto da população em geral, permitem aos leitores de hoje, e sobretudo aos habitantes destas localidades, ter uma impressão directa do papel que o lugar onde vivem representou na chamada “Primeira Globalização”.

A exposição de fotografias de Coria del Rio chegou ontem a Vila Viçosa, e foi inaugurada com um evento muitíssimo bem organizado e extraordinariamente relevante nas relações entre a Península Ibérica e o Japão. A pequena sala de rés-do-chão do Cine-Teatro Florbela Espanca em Vila Viçosa foi efectivamente o lugar onde se realizou o evento cultural, pedagógico e académico mais significativo do último ano no que diz respeito às relações de diplomacia informal ibero-nipónicas, embora a humildade dos seus protagonistas e a singeleza dos seus organizadores tenham possivelmente distraído o público desse facto.

 

A Exposição “El r@stro del samurái” poderá visitar-se todos os dias da semana e do fim-de-semana, das 14h às 18h, gratuitamente. O catálogo da exposição está também disponível para venda, tendo o PVP de 15 euros, e os fundos revertem para a Associação de habitantes de Coria del Rio com o sobrenome Japón, sendo esses fundos actualmente usados para financiar investigação e promover eventos de interculturalidade.

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Tiago Salgueiro, autor do livro “Do Japão para o Alentejo”, sobre a passagem da Embaixada Tenshou por Vila Viçosa, aqui a apresentar a documentação do arquivo da Fundação Casa de Bragança.

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Professor Doutor Juan Manuel Suárez Japón, membro de grande relevo na Associação Hasekura, aqui a apresentar as circunstâncias únicas de Coria del Rio no que diz respeito à sua relação com o Japão e os japoneses. Com efeito, devido às publicações desta Associação, as quais têm sido feitas em modo bilingue (também japonês), verificou-se um aumento do fluxo de visitantes japoneses, algo que estreitou significativamente as relações internacionais da localidade e trouxe grande satisfação aos “japónes” de Coria.

Convidamos todos os seguidores deste blog a conhecer esta exposição e também a realizar a visita ao Paço Ducal de Vila Viçosa, seguindo os passos da embaixada japonesa que o visitou há quase meio milénio. O estabelecimento de uma geminação entre o município de Coria del Rio e o de Vila Viçosa fazem prever um futuro brilhante para a cooperação entre estas duas localidades no que diz respeito à gestão do património cultural relacionado com o Japão – que é o factor que mais as aproxima – pelo que as relações ibero-nipónicas podem ter aqui um novo fôlego. Nós esperamos que sim, e teremos muito gosto em documentar as próximas iniciativas!

(Para efeitos jornalísticos, se desejar aceder a mais fotos e vídeos deste evento, queira por favor contactar umlongoveraonojapao@gmail.com)

 

 

Clube de Leituras do Oriente em Lisboa

Depois da última sessão especial do Clube de Leituras do Oriente em Lisboa, que tratou dois livros de Shusaku Endo, preparamos agora uma outra sessão especial deste Clube em Lisboa, a qual decorrerá no dia 10 de Março, entre as 16h e as 18h.

Nesta sessão, dedicada ao livro “Pearl Harbor, Lisboa, Tóquio” de Morishima Morito, contamos com a presença de dois ilustres convidados: a tradutora Yuko Kase e o editor Paulo Ramos, principais responsáveis pela publicação desta notável obra em língua portuguesa.

Apesar de o Clube de Leituras do Oriente ser um evento gratuito quando decorre na sala que regularmente usamos (em Coimbra), neste caso necessitamos de pedir a contribuição de cinco euros por pessoa para cobrir as despesas de deslocação e de organização da sessão. Agradecemos a sua compreensão e colaboração.

Para assegurar o seu lugar poderá pedir inscrição antecipadamente por email: umlongoveraonojapao@gmail.com

A editora Ad Litteram disponibilizará livros para venda neste evento pelo que, se desejar fazer a inscrição já com o livro incluído, o valor será quinze euros (sendo o PVP do livro dez euros). Se desejar fazer o levantamento do livro no próprio dia mas ter a certeza que já se encontra reservado recomendamos que o solicite ao escrever-nos email.

Naturalmente, quem já tem/leu o livro poderá levar o seu exemplar para acompanhar as leituras.

Esta sessão irá ter lugar, excepcionalmente, no Canto das Letras, junto ao Departamento de Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Por ser a um sábado à tarde e a instituição poder encontrar-se fechada, recomenda-se que a entrada seja feita como se mostra na figura.

FLL

(38°45’15.7″N  9°09’31.7″W)

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade, 1600-214 Lisboa

Transportes: Metro – estação da Cidade Universitária; Carris – 731, 735, 738, 755, 768

Cartaz oficial do evento:

Morishima morito - livro - clube de leituras - Lisboa - 2018 - CARTAZ

 

Registos de vídeo do Clube de Leituras

No passado dia 20, decorreu em Lisboa uma sessão especial do nosso Clube de Leituras do Oriente. Esta sessão era especial por dois motivos: por ser em Lisboa e por ser dupla. Os dois livros que tratámos foram “O Samurai” e “Silêncio”, ambos do escritor japonês Shusaku Endo. A apresentação do livro “Silêncio” ficou a cargo de Pedro Teixeira da Mota, que foi também o nosso anfitrião, já que amavelmente cedeu o espaço da Biblioteca de Estudos Espirituais e Orientais para esta reunião literária.

Ora o Pedro teve ainda a gentileza que filmar algumas partes desta sessão e de disponibilizar essas filmagens no seu canal de youtube, as quais podem ver também a partir dos links que se seguem:

 

 

Edição especial em Lisboa

Vamos ter uma edição especial do Clube de Leituras o Oriente! Especial porque é em Lisboa e porque é uma sessão dupla, dedicada ao escritor japonês Shusaku Endo. Os livros tratados nesta sessão serão Silêncio e O Samurai.

Oradores: Inês Carvalho Matos e Pedro Teixeira da Mota

Os participantes são convidados a ler os livros antes da sessão, embora não seja um pré-requisito para desfrutarem da mesma.

A participação requer pré-inscrição por email, através de umlongoveraonojapao@gmail.com

20 de Janeiro de 2018 a partir das 15:30h
Biblioteca de Estudos Espirituais e Orientais
Rua da Esperança, 103, r/c
1200-656 Lisboa

 

Clube de Leituras do Oriente: O Samurai

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25 de Novembro de 2017, às 16h

Livro: O Samurai, de Shusaku Endo

O Clube de Leituras do Oriente é uma sessão aberta a toda a comunidade de alunos e de público geral, no âmbito do programa de Estudos Japoneses do Projecto Cultural e Pedagógico “Um longo Verão no Japão”. A entrada é gratuita, dependendo da existência de lugares disponíveis na sala, mas não incluí o livro ou a sua reprodução.

Para fazer parte do nosso grupo de Estudos Japoneses e ter acesso aos materiais pedagógicos, entre eles os livros do Clube de Leituras, poderá solicitar inscrição por email: umlongoveraonojapao@gmail.com

Local: Sala “A”, 1º piso, Instituto Universitário Justiça e Paz, Universidade de Coimbra

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Nesta sessão serão apresentadas informações sobre o autor, a sua obra em geral, o contexto histórico no qual se desenvolve a história ficcional (mas inspirada em factos verídicos), e serão também apresentados outros elementos relevantes para o entendimento da obra. Para esta primeira parte da sessão, de natureza, expositiva, foi elaborada uma apresentação, a qual pode ser consultada em formato PDF aqui: clube de leituras do oriente – o samurai – novembro 2017 – suporte de apresentacao

Memórias de Morishima Morito

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Foto de Paulo Ramos, Editor.

 

“Pearl Harbor, Lisboa, Tóquio – memórias de um diplomata” é um livro extremamente importante para o estudo das relações internacionais do Jão no período imediatamente anterior e durante a II Guerra Mundial, e consiste na compilação de escritos de um dos diplomatas japoneses mais lúcidos deste período. A somar-se a isso, é o livro que vem definitivamente contribuir para os Estudos Japoneses em Portugal no campo da História Contemporânea, já que Morishima Morito foi também embaixador do Japão em Lisboa entre Setembro de 1942 e o início de 1946.

Esta notável tradução, feita por Yuko Kase, foi editada em Portugal por Paulo Ramos e Laurinda Brandão, sendo um exemplo de perseverança e resiliência, pois (à semelhança de tantos outros livros) o mercado editorial de grande escala não o recebeu. O facto de este livro existir deve-se então à força de vontade da tradutora e dos editores, e a alguns apoios angariados, entre eles o da empresa Toshiba. Pode portanto dizer-se que a existência deste livro reflecte a comunidade nipo-portuguesa e o tecido social e cultural que estes indivíduos têm construído ao longo de mais de meio século.

Como crítica negativa, porventura poderá apontar-se a ausência de notas e referências complementares ao corpo do texto, mas também é certo que o livro não se assume como uma edição crítica. Se disponíveis, estes elementos beneficiariam o entendimento dos episódios, personagens e termos tratados nas memórias, sobretudo na primeira parte, sobre a relação entre o Japão e os Estados Unidos da América.

Apesar disso, este é um livro de fácil leitura, pois o estilo de escrita do próprio Morishima é escorreito, sem contudo cair em simplificações dadas à parcialidade, e ao mesmo tempo evitando a sobre-dosagem de descrições técnicas. O autor revela várias propostas concretas que tanto ele como outros foram apresentando ao governo do seu país e que, ao serem recusadas, levaram à crispação das relações do Japão com a Europa e a América. Com efeito, este é um livro que não poupa críticas à falta de cuidado com que se caminhou para uma situação sem retorno.

O último capítulo do livro, dedicado a uma visão panorâmica sobre a diplomacia japonesa, é particularmente útil aos estudantes e investigadores de Estudos Japoneses e de Relações Internacionais. Nele, o autor faz um resumo do que considera serem as “carências” da diplomacia japonesa: orientação, política nacional em geral, percepção da situação internacional e opinião pública. Diz mesmo que “foi a ausência de todos estes aspectos que conduziu à fraqueza da nossa diplomacia”.

Segundo Morishima Morito “a Guerra do Pacífico, que começou com o Incidente da Manchúria (…) resultou do autoritarismo irreflectido dos militares e da obediência cega dos cidadãos sem uma verdadeira consciência.” Oferece várias hipóteses de explicação para essa posição dos cidadãos, entre elas a de o povo japonês revelar falta de conhecimentos da cultura internacional e inexperiência em lidar com o mundo exterior, fruto da sua situação geográfica e também da política se isolamento seguida na era do shogunato Tokugawa. Contudo, não permite a exoneração de responsabilidades aos políticos, diplomatas e militares, os quais manifestaram uma falta de visão crónica e uma lamentável incompetência no domínio da negociação. Naturalmente, as palavras de Morishima Morito representam a sua visão subjectiva, mas é um testemunho de grande impacto por ter sido escrito logo em 1950 e tendo em vista um público japonês.

Este livro, lançado muito recentemente, entra automaticamente para o nosso programa de estudos japoneses, fazendo doravante parte das obras estudadas no Clube de Leitura e nas aulas de História do Japão. A partir de Setembro, quando for lançado o programa para o próximo ano lectivo, poderá juntar-se ao nosso grupo de alunos e professores e participar na leitura e discussão desta e de outras obras.

12 meses convosco…

Foi em Junho de 2016, com a Pré-Festa do Japão em Coimbra, que arrancámos a sério com o projeto de estudos japoneses em Portugal, tendo finalmente uma Casa que nos acolhesse e um plano pedagógico para todo o ano lectivo que se avizinhava. Durante o  Verão oferecemos os primeiros cursos, preparámos uma exposição interativa e em Setembro começaram a funcionar as aulas. Pela primeira vez na longa história da relação entre Portugal e o Japão, de forma consistente e com ritmo certo semanal, um grupo de pessoas juntou-se para aprender sobre o Japão e a cultura japonesa, todas as sextas-feiras, muitas vezes com convidados japoneses ou proporcionando o encontro de alunos japoneses com alunos portugueses.  Mais de nove meses disto e continuamos, todas as sextas-feiras. Veja o que fizemos juntos neste ano lectivo, e junte-se a nós para os cursos de Verão!

Clube de Leituras do Oriente

Na próxima sexta-feira voltamos a juntar-nos em volta de boas leituras. O livro deste mês é “Elogio da Sombra”, de Junichiro Tanizaki. Seguimos a edição de bolso da Relógio d’Água.

O autor e o seu tempo

Junichiro Tanizaki nasceu em 1886, na área metropolitana de Tokyo, no seio de uma família que se dedicava ao comércio e especulação do preço do arroz. Nestas condições, Junichiro encontrava-se no lado afortunado da sociedade, embora rodeado de eventos mais ou menos turbulentos. Em 1868 o Japão tinha assistido a uma das mais dramáticas mudanças de regime político da história mundial: a transição do sistema do shogunato Tokugawa para o governo imperial Meiji, com a subsequente formação de parlamento e redação da constituição. Ao nível da população em geral o velho sistema fundado em clãs familiares e clientelismo feudal ainda vigorou, em paralelo, por vários anos. Algumas das reformas, nomeadamente ao nível da organização da produção agrícola e estabelecimento de preços para os bens alimentares, provocaram revoltas violentas, como por exemplo a de Chichibu, apenas dois anos antes do nascimento de Junichiro.

Em 1871 tinha-se implementado outra reforma problemática, que descaracterizava a identidade local das populações: a abolição do sistema “Han” para a organização do território e a sua substituição pelo sistema de “Prefeituras”. Este processo acentuou fenómenos como a migração interna, tendo muitas pessoas viajado dos campos para as grandes cidades em busca de meios de subsistência e novas raízes. Todo o estrato social das famílias Samurai estava em perigo, pois estas famílias consideravam-se donos da terra e dos seus rendimentos sem que tivessem outras profissões ou competências para além de estarem disponíveis para combater pelo respetivo superior. No novo sistema Meiji, o Imperador não necessitava de Samurai, e a classe tornou-se obsoleta. Em 1877 deu-se uma das maiores contra-revoltas que pretendia restabelecer a dominância do sistema baseado nas famílias Samurai, partindo de Satsuma (atual prefeitura de Kagoshima). Alegavam que o próprio Imperador poderia estar a ser um fantoche dos interesses das potências estrangeiras e que, ao resistir ao novo sistema, estavam na verdade a defender os interesses da família imperial. No entanto estavam também a prevenir que a sua destituição os tornasse em famílias virtualmente sem bens, sem património e sem estatuto.

Junichiro cresceu então numa cidade com um número crescente de habitantes, onde se discutia ativamente ideologia, moral, política, e o rumo do país, onde se debatia que elementos da organização administrativa de tipo “ocidental” eram convenientes para o “novo Japão”, quais deveriam ser adaptados, e como. Na sua infância fazia-se sentir o clima de que “nada é seguro” e de que todos os pressupostos podem ser depostos e substituídos. Os programas educativos ainda se focavam em disciplinas antigas, mas os eventos do mundo pareciam tê-los ultrapassado.

Para além disso, vindo acentuar ainda mais essa impressão generalizada da mudança, ocorreu um sismo de grande gravidade nas províncias a noroeste de Tokyo: o sismo de Mino-Owari de 1891 (ou 1890 conforme o calendário é ocidental ou oriental, porque foi em Fevereiro). Este terramoto teve a intensidade de grau 8.0, tendo deixado fendas muito grandes na paisagem rural. O seu impacto psicológico e cultural foi tão intenso que marcou o início dos estudos científicos de sismologia no Japão, tendo-se fundado nesse mesmo ano o Instituto de Sismologia. Foi a partir do estudo das réplicas deste sismo que o cientista Fusakichi Omori desenvolveu o seu trabalho (estudou a duração, ritmo e intensidade, efeitos na paisagem, na agricultura, etc), já que o evento de Mino-Owari teve mais de 3.000 réplicas ao longo de 14 meses.

Em Agosto de 1894, quando Junichiro tinha apenas 6 anos, inicia-se a Guerra entre a China e o Japão. O motivo desta guerra foi sobretudo o poder de influenciar o governo da Coreia, que era considerada pelo Império do Meio como um estado tributário (aproximadamente o mesmo que uma Região Autónoma como a Madeira ou Açores para Portugal). O governo do Japão entrou nesta guerra para prevenir que a Coreia fosse ocupada por potências imperiais ocidentais, as quais estavam sistematicamente a ganhar terreno no mar da China. O interesse da Prússia na Península Coreana e a incapacidade do exército do Império do Meio para fazer frente às táticas ocidentais preocupavam o Imperador Meiji, pois poderiam vir a tornar o Japão também vulnerável a tentativas de colonização. No entanto, quando a guerra acabou, em 1895 e com a vitória do Japão, os interesses nipónicos deixaram de ser apenas preventivos e passaram a ser mais agressivos. Entre as novas elites militares, muitos deles chefes Samurai convertidos apenas nominalmente em generais e líderes armados, existia a necessidade de provar a honra e glória do novo estado japonês. Logo em 1895 prosseguiram para a Invasão da Formosa (atual Taiwan), onde o governo japonês passou a ter soberania nos 50 anos seguintes.

A educação de Junichiro refletiu o seu tempo. Foi educado tanto nas letras clássicas da China como na literatura ocidental. Quando escolheu os estudos universitários renegou a herança de empreendedorismo e comércio da sua família e escolheu fazer parte da nova vaga de jovens rapazes “eruditos nas artes e letras”. Estes jovens não ambicionavam ser “artistas” (não no sentido que se dá ao termo no Ocidente) mas reclamavam para si um lugar inédito na sociedade japonesa, pois recusavam veementemente a integração na febre da produção industrial ou na vida mercantil. Sendo citadinos, não se reconheciam nas zonas rurais, mas a pressão sentida nas cidades exercia neles ansiedade e insegurança, pelo que se refugiavam na criação literária e no debate frívolo de política, de relações familiares e de dilemas de valores. Quando conseguiu entrar na mais cobiçada universidade do país, a Universidade Imperial de Tokyo, em 1908, inscreveu-se no Departamento de Literatura Clássica Japonesa. Mas foi junto dos seus colegas de curso que encontrou o seu grupo, e que se reconheceu como escritor, tendo-se desinteressado rapidamente pelo lado formal das palestras, ao ponto de nunca ter concluído a sua formação.

O seu primeiro romance é apenas de 1925 (Chijin no Ai), mas desde 1910 que escrevia contos, os quais foram sendo publicados por pequenas editoras ou integrados em publicações periódicas. Os temas por ele escolhidos procuram provocar no leitor a sensação de desconforto, repulsa ou medo, trata também muitas vezes as relações disfuncionais entre homens e mulheres, o masoquismo e a tirania. Em 1922 tinha criado o texto para teatro Okuni and Gohei, mais longo que os habituais contos, com temática histórica e marcado pela violência.

O grande terramoto de 1923, que viria a mudar profundamente a cidade de Tokyo, fez com que Junichiro tomasse a decisão de abandonar definitivamente a cidade. Por um lado estava muito descontente com a modernização urbana, e por outro estava mais interessado no que se passava criativamente na região de Kansai (Kyoto, Osaka, Kobe), onde a relação Oriente-Ocidente tinha características muito diferentes de Tokyo. Kyoto oferecia-se-lhe como uma paisagem pitoresca, de um Japão tradicional idealizado, lutando para se redefinir com graça e charme. Osaka, a cidade do porto e do comércio, era mais relaxada ao nível da política e do papel dos militares na sociedade. Kobe, o local de todas as embaixadas das potências ocidentais, falava todas as línguas e podia ter um café parisiense ao lado de uma banca da ramen. O cosmopolitismo assentou-lhe bem, e o retrato das idiossincrasias da vida moderna, e dos seus personagens emergentes, tornou-se a sua inspiração. Datam deste período as suas obras de maior sucesso e qualidade, incluindo projetos tão inovadores como Manji (1930) que foi escrito inteiramente no dialeto de Osaka. Ensaiou a versatilidade cronológica em várias obras, como por exemplo em Momoku Monogatari (1931), um romance que se passa no século XVI e no qual todas as personagens são “vistas” por um protagonista que é cego, e que tem ambição de ser uma subtil sátira às escolhas políticas da sociedade japonesa desde esse período até à contemporaneidade.

Em 1949 o Governo Japonês reconheceu a proeminência de Tanizaki no campo da literatura contemporânea e o seu lugar no pódio dos grandes escritores japoneses de todos os tempos, tendo-lhe concedido uma Ordem. Em 1964 chegou a integrar a Lista de Atribuição de Prémio Nobel da Literatura, mas o seu nome veio a ser retirado sem que tivesse sido atribuído devido ao seu falecimento.

Desde 1958 que Tanizaki já não podia escrever, pois teve pequenos episódios de AVC nos anos precedentes, o que lhe paralisou a mão direita. A sua saúde degradou-se bastante no final da década de 50, o que culminou com o internamento hospitalar em 1960, tendo sido registado como angina de peito. Faleceu de ataque cardíaco em 1965.

 

O ensaio estético “Elogio da Sombra”

Este pequeno livro destaca-se na obra de Tanizaki porque não representa uma das suas obras de ficção. Em vez disso, neste livro o autor fala na primeira pessoa e dá-nos a sua impressão sobre a estética japonesa, num sentido lato. Considerando que a sua área era a das letras e não as das artes, o autor não assumiu que este livro tratava a história da arte japonesa, mas na prática oferece-nos uma visão que se aproxima muito do ensaio estético. A sua publicação em língua japonesa é de 1933 e tem como destinatário preferencial o público japonês que, no contexto da Modernidade, se afastava progressivamente da estética tradicional. O autor incorpora referências a obras literárias e correntes artísticas ocidentais, fazendo amplo uso das comparações, das reinterpretações e da crítica, mas o seu tema predominante é a apologia ao que considerava ser específico da sensibilidade japonesa. Em grande parte trata-se de uma “tradição sublimada”, no seguimento do que fizeram muitos outros intelectuais da época Meiji e posterior, para marcar uma identidade japonesa em contexto de dúvida e insegurança coletiva. A obra só viria a ser conhecida no Ocidente a partir da década de 70, tendo-se tornado rapidamente um manual de referência para estudantes de arte, design e arquitetura.

O título em língua japonesa remete para a ideia de aclamação/elogio, mas também para a de gratidão. As sombras seriam então um elemento essencial ao equilíbrio entre o cheio e o vazio, o espaço e o conteúdo, e teriam um papel essencial à apreciação das coisas, inclusivamente da própria luz (que se vê assim “temperada” por uma certa dose de sombras).

 

Língua Portuguesa no Japão

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Já está disponível na Casa das Artes Bissaya Barreto (Coimbra) a revista “Palavras Viajantes” dedicada ao ensino e uso da língua portuguesa no Japão. O PVP é 5 euros.

Trata-se do primeiro número de uma publicação anual, criada pela Associação Rotas da Lusofonia, em consequência da Conferência Internacional “Rotas e Paisagens da Língua Portuguesa”.

Se desejar adquirir esta revista através do Projeto Cultural e Pedagógico “Um longo Verão no Japão” deve contactar umlongoveraonojapao@gmail.com. Podemos enviar por correio para todo o país, à cobrança (os portes de envio serão adicionados ao PVP).