12 meses convosco…

Foi em Junho de 2016, com a Pré-Festa do Japão em Coimbra, que arrancámos a sério com o projeto de estudos japoneses em Portugal, tendo finalmente uma Casa que nos acolhesse e um plano pedagógico para todo o ano lectivo que se avizinhava. Durante o  Verão oferecemos os primeiros cursos, preparámos uma exposição interativa e em Setembro começaram a funcionar as aulas. Pela primeira vez na longa história da relação entre Portugal e o Japão, de forma consistente e com ritmo certo semanal, um grupo de pessoas juntou-se para aprender sobre o Japão e a cultura japonesa, todas as sextas-feiras, muitas vezes com convidados japoneses ou proporcionando o encontro de alunos japoneses com alunos portugueses.  Mais de nove meses disto e continuamos, todas as sextas-feiras. Veja o que fizemos juntos neste ano lectivo, e junte-se a nós para os cursos de Verão!

Clube de Leituras do Oriente

Na próxima sexta-feira voltamos a juntar-nos em volta de boas leituras. O livro deste mês é “Elogio da Sombra”, de Junichiro Tanizaki. Seguimos a edição de bolso da Relógio d’Água.

O autor e o seu tempo

Junichiro Tanizaki nasceu em 1886, na área metropolitana de Tokyo, no seio de uma família que se dedicava ao comércio e especulação do preço do arroz. Nestas condições, Junichiro encontrava-se no lado afortunado da sociedade, embora rodeado de eventos mais ou menos turbulentos. Em 1868 o Japão tinha assistido a uma das mais dramáticas mudanças de regime político da história mundial: a transição do sistema do shogunato Tokugawa para o governo imperial Meiji, com a subsequente formação de parlamento e redação da constituição. Ao nível da população em geral o velho sistema fundado em clãs familiares e clientelismo feudal ainda vigorou, em paralelo, por vários anos. Algumas das reformas, nomeadamente ao nível da organização da produção agrícola e estabelecimento de preços para os bens alimentares, provocaram revoltas violentas, como por exemplo a de Chichibu, apenas dois anos antes do nascimento de Junichiro.

Em 1871 tinha-se implementado outra reforma problemática, que descaracterizava a identidade local das populações: a abolição do sistema “Han” para a organização do território e a sua substituição pelo sistema de “Prefeituras”. Este processo acentuou fenómenos como a migração interna, tendo muitas pessoas viajado dos campos para as grandes cidades em busca de meios de subsistência e novas raízes. Todo o estrato social das famílias Samurai estava em perigo, pois estas famílias consideravam-se donos da terra e dos seus rendimentos sem que tivessem outras profissões ou competências para além de estarem disponíveis para combater pelo respetivo superior. No novo sistema Meiji, o Imperador não necessitava de Samurai, e a classe tornou-se obsoleta. Em 1877 deu-se uma das maiores contra-revoltas que pretendia restabelecer a dominância do sistema baseado nas famílias Samurai, partindo de Satsuma (atual prefeitura de Kagoshima). Alegavam que o próprio Imperador poderia estar a ser um fantoche dos interesses das potências estrangeiras e que, ao resistir ao novo sistema, estavam na verdade a defender os interesses da família imperial. No entanto estavam também a prevenir que a sua destituição os tornasse em famílias virtualmente sem bens, sem património e sem estatuto.

Junichiro cresceu então numa cidade com um número crescente de habitantes, onde se discutia ativamente ideologia, moral, política, e o rumo do país, onde se debatia que elementos da organização administrativa de tipo “ocidental” eram convenientes para o “novo Japão”, quais deveriam ser adaptados, e como. Na sua infância fazia-se sentir o clima de que “nada é seguro” e de que todos os pressupostos podem ser depostos e substituídos. Os programas educativos ainda se focavam em disciplinas antigas, mas os eventos do mundo pareciam tê-los ultrapassado.

Para além disso, vindo acentuar ainda mais essa impressão generalizada da mudança, ocorreu um sismo de grande gravidade nas províncias a noroeste de Tokyo: o sismo de Mino-Owari de 1891 (ou 1890 conforme o calendário é ocidental ou oriental, porque foi em Fevereiro). Este terramoto teve a intensidade de grau 8.0, tendo deixado fendas muito grandes na paisagem rural. O seu impacto psicológico e cultural foi tão intenso que marcou o início dos estudos científicos de sismologia no Japão, tendo-se fundado nesse mesmo ano o Instituto de Sismologia. Foi a partir do estudo das réplicas deste sismo que o cientista Fusakichi Omori desenvolveu o seu trabalho (estudou a duração, ritmo e intensidade, efeitos na paisagem, na agricultura, etc), já que o evento de Mino-Owari teve mais de 3.000 réplicas ao longo de 14 meses.

Em Agosto de 1894, quando Junichiro tinha apenas 6 anos, inicia-se a Guerra entre a China e o Japão. O motivo desta guerra foi sobretudo o poder de influenciar o governo da Coreia, que era considerada pelo Império do Meio como um estado tributário (aproximadamente o mesmo que uma Região Autónoma como a Madeira ou Açores para Portugal). O governo do Japão entrou nesta guerra para prevenir que a Coreia fosse ocupada por potências imperiais ocidentais, as quais estavam sistematicamente a ganhar terreno no mar da China. O interesse da Prússia na Península Coreana e a incapacidade do exército do Império do Meio para fazer frente às táticas ocidentais preocupavam o Imperador Meiji, pois poderiam vir a tornar o Japão também vulnerável a tentativas de colonização. No entanto, quando a guerra acabou, em 1895 e com a vitória do Japão, os interesses nipónicos deixaram de ser apenas preventivos e passaram a ser mais agressivos. Entre as novas elites militares, muitos deles chefes Samurai convertidos apenas nominalmente em generais e líderes armados, existia a necessidade de provar a honra e glória do novo estado japonês. Logo em 1895 prosseguiram para a Invasão da Formosa (atual Taiwan), onde o governo japonês passou a ter soberania nos 50 anos seguintes.

A educação de Junichiro refletiu o seu tempo. Foi educado tanto nas letras clássicas da China como na literatura ocidental. Quando escolheu os estudos universitários renegou a herança de empreendedorismo e comércio da sua família e escolheu fazer parte da nova vaga de jovens rapazes “eruditos nas artes e letras”. Estes jovens não ambicionavam ser “artistas” (não no sentido que se dá ao termo no Ocidente) mas reclamavam para si um lugar inédito na sociedade japonesa, pois recusavam veementemente a integração na febre da produção industrial ou na vida mercantil. Sendo citadinos, não se reconheciam nas zonas rurais, mas a pressão sentida nas cidades exercia neles ansiedade e insegurança, pelo que se refugiavam na criação literária e no debate frívolo de política, de relações familiares e de dilemas de valores. Quando conseguiu entrar na mais cobiçada universidade do país, a Universidade Imperial de Tokyo, em 1908, inscreveu-se no Departamento de Literatura Clássica Japonesa. Mas foi junto dos seus colegas de curso que encontrou o seu grupo, e que se reconheceu como escritor, tendo-se desinteressado rapidamente pelo lado formal das palestras, ao ponto de nunca ter concluído a sua formação.

O seu primeiro romance é apenas de 1925 (Chijin no Ai), mas desde 1910 que escrevia contos, os quais foram sendo publicados por pequenas editoras ou integrados em publicações periódicas. Os temas por ele escolhidos procuram provocar no leitor a sensação de desconforto, repulsa ou medo, trata também muitas vezes as relações disfuncionais entre homens e mulheres, o masoquismo e a tirania. Em 1922 tinha criado o texto para teatro Okuni and Gohei, mais longo que os habituais contos, com temática histórica e marcado pela violência.

O grande terramoto de 1923, que viria a mudar profundamente a cidade de Tokyo, fez com que Junichiro tomasse a decisão de abandonar definitivamente a cidade. Por um lado estava muito descontente com a modernização urbana, e por outro estava mais interessado no que se passava criativamente na região de Kansai (Kyoto, Osaka, Kobe), onde a relação Oriente-Ocidente tinha características muito diferentes de Tokyo. Kyoto oferecia-se-lhe como uma paisagem pitoresca, de um Japão tradicional idealizado, lutando para se redefinir com graça e charme. Osaka, a cidade do porto e do comércio, era mais relaxada ao nível da política e do papel dos militares na sociedade. Kobe, o local de todas as embaixadas das potências ocidentais, falava todas as línguas e podia ter um café parisiense ao lado de uma banca da ramen. O cosmopolitismo assentou-lhe bem, e o retrato das idiossincrasias da vida moderna, e dos seus personagens emergentes, tornou-se a sua inspiração. Datam deste período as suas obras de maior sucesso e qualidade, incluindo projetos tão inovadores como Manji (1930) que foi escrito inteiramente no dialeto de Osaka. Ensaiou a versatilidade cronológica em várias obras, como por exemplo em Momoku Monogatari (1931), um romance que se passa no século XVI e no qual todas as personagens são “vistas” por um protagonista que é cego, e que tem ambição de ser uma subtil sátira às escolhas políticas da sociedade japonesa desde esse período até à contemporaneidade.

Em 1949 o Governo Japonês reconheceu a proeminência de Tanizaki no campo da literatura contemporânea e o seu lugar no pódio dos grandes escritores japoneses de todos os tempos, tendo-lhe concedido uma Ordem. Em 1964 chegou a integrar a Lista de Atribuição de Prémio Nobel da Literatura, mas o seu nome veio a ser retirado sem que tivesse sido atribuído devido ao seu falecimento.

Desde 1958 que Tanizaki já não podia escrever, pois teve pequenos episódios de AVC nos anos precedentes, o que lhe paralisou a mão direita. A sua saúde degradou-se bastante no final da década de 50, o que culminou com o internamento hospitalar em 1960, tendo sido registado como angina de peito. Faleceu de ataque cardíaco em 1965.

 

O ensaio estético “Elogio da Sombra”

Este pequeno livro destaca-se na obra de Tanizaki porque não representa uma das suas obras de ficção. Em vez disso, neste livro o autor fala na primeira pessoa e dá-nos a sua impressão sobre a estética japonesa, num sentido lato. Considerando que a sua área era a das letras e não as das artes, o autor não assumiu que este livro tratava a história da arte japonesa, mas na prática oferece-nos uma visão que se aproxima muito do ensaio estético. A sua publicação em língua japonesa é de 1933 e tem como destinatário preferencial o público japonês que, no contexto da Modernidade, se afastava progressivamente da estética tradicional. O autor incorpora referências a obras literárias e correntes artísticas ocidentais, fazendo amplo uso das comparações, das reinterpretações e da crítica, mas o seu tema predominante é a apologia ao que considerava ser específico da sensibilidade japonesa. Em grande parte trata-se de uma “tradição sublimada”, no seguimento do que fizeram muitos outros intelectuais da época Meiji e posterior, para marcar uma identidade japonesa em contexto de dúvida e insegurança coletiva. A obra só viria a ser conhecida no Ocidente a partir da década de 70, tendo-se tornado rapidamente um manual de referência para estudantes de arte, design e arquitetura.

O título em língua japonesa remete para a ideia de aclamação/elogio, mas também para a de gratidão. As sombras seriam então um elemento essencial ao equilíbrio entre o cheio e o vazio, o espaço e o conteúdo, e teriam um papel essencial à apreciação das coisas, inclusivamente da própria luz (que se vê assim “temperada” por uma certa dose de sombras).

 

Tōrō-nagashi

Na Festa do Japão em Lisboa, que este ano se vai realizar no dia 24 de Junho, poderão juntar-se ao evento de lançar na água lanternas Tōrō. A Embaixada do Japão divulgou o modelo destas lanternas de papel, para poderem fazer em casa/com os amigos/nas aulas e depois trazerem para o dia da Festa!

Vejam aqui o modelo e medidas para fazerem a vossa lanterna.

Inscrições abertas!

Caros alunos do curso “Japão: Língua e Cultura”,
Caros amigos e amigas deste Projecto Cultural e Pedagógico,
Estamos prestes a começar o segundo trimestre deste ano e voltam a abrir inscrições…
Os vossos lugares estão sempre reservados para se inscreverem primeiro, já sabem.
Neste trimestre temos maior diversidade de oferta formativa e mais horas de língua japonesa, por favor consultem a informação que se segue:
1) Os alunos podem escolher fazer apenas as aulas de língua japonesa ou a modalidade de curso completo.
2) O pagamento de todo o trimestre até ao dia 7 de Abril, tanto para os alunos novos como para os alunos que queiram entrar no curso, leva ao desconto de 10 euros sobre o valor final.
3) É possível fazer o pagamento em duas fases: 50% até ao dia 7 de Abril e 50% até ao dia 5 de Maio.
4) O que está incluído na inscrição trimestral para a totalidade do curso*:
Os alunos do grupo A terão 8 aulas de língua japonesa.
Os alunos do grupo B terão 9 aulas de língua japonesa e mais uma aula não presencial (uma ficha de trabalho para realizar durante um período de tempo equivalente a uma aula, com a estrutura de uma aula, com materiais cedidos pela professora, e que vai ser depois corrigida).
Continuarão a ser entregues materiais para a introdução ao Kanji, em conformidade com os temas das aulas, em formato PDF e por email, criados em exclusividade para os alunos deste curso.
Todos os alunos que já se tinham inscrito no curso de sumi-e terão a aula de sumi-e que falta (não estava prevista para este semestre) sem nenhuma despesa adicional naturalmente.
Podem assistir à sessão sobre bolsas de estudo e outros apoios para estudar/trabalhar no Japão, a realizar a 21 de Abril.
Podem assistir à sessão sobre poesia Haiku, com a Professora Leonilda Alfarrobinha (autora do livro que encadernámos no workshop), a realizar no dia 5 de Maio.
Se pretenderem fazer o Curso de Desenho de Animação Japonesa, dado pela Professora Paula Walker, podem fazê-lo pelo custo adicional de 10 euros por cada sessão. O público externo, mesmo os estudantes, terão um valor mínimo de inscrição de 15 euros por sessão. Este Curso vai realizar-se aos domingos à tarde, a partir de 21 de Maio.
Podem assistir gratuitamente à projecção dos filmes de animação japonesa que constituem a primeira parte do Curso de Desenho de animação Japonesa sem que tenham de pagar inscrição alguma, desde que tenham lugar na sala. (Portanto sem fazerem a parte do workshop de desenho.)
Recebem o livro “O elogio da Sombra”, que vai ser trabalhado no próximo Clube de Leitura. E podem naturalmente participar na sessão do Clube de Leitura.
Entrada gratuita no evento “Festa do Japão em Coimbra” a realizar no dia 30 de Junho.
Podem descarregar o calendário em PDF: calendário 3º trimestre Curso Japão Língua e cultura
* Se apenas se inscreverem nas aulas de língua japonesa e não na totalidade do curso o preço por cada aula de 80 minutos é 10 euros. Consideram-se “aulas de língua japonesa” apenas as aulas presenciais com a professora Ayano e não estão incluídos outros materiais formativos, como por exemplo conteúdos de kanji ou outros.
Todos os alunos, inscritos apenas nas aulas de língua japonesa ou no programa completo, serão sempre informados de todos os eventos, e também dos convívios com estudantes japoneses que venham a ser agendados.
Se tiverem conhecimento de quem queira juntar-se ao nosso curso podem informar que, para fazer um diagnóstico do nível de língua japonesa, deverão marcar data e hora por email: umlongoveraonojapao@gmail.com. O diagnóstico é gratuito.
Curso Completo:
Preço Público Geral: 150 euros.
Preço Estudantes (e estudantes deste curso): 110 euros.
Para pagamentos na totalidade até 7 de Abril: 100 euros.
Para pagamento faseado: 55 euros até 7 de Abril e 55 euros até 5 de Maio.
Se não têm a referência para pagamento – NIB – por favor solicitem por email.
Se escolherem essa modalidade de pagamento peço que enviem email com comprovativo, para poder registar a inscrição. Se pretenderem também podem fazer pagamento em numerário numa das próximas aulas ou em horário a combinar.
A todos os que receberam esta informação por email ou através da consulta do nosso blog, agradeço desde já a divulgação que possam vir a fazer, de modo a podermos continuar a ter um grupo de Estudos Japoneses independente, feito de alunos para alunos, focado na procura do saber e no valor do encontro e da interculturalidade.
Recordo que este Projecto Cultural e todas as suas iniciativas não têm fins lucrativos, e o valor da inscrição destina-se exclusivamente a cobrir a despesa do seu funcionamento, designadamente o aluguer do espaço, os materiais que se usam, a compensação para os professores e outros convidados que têm de se deslocar para nos vir dar formação, etc.
E, como sempre, estou ao vosso dispor para esclarecimentos e sugestões!
– Inês Matos

O início de um novo trimestre!

Vem aí o segundo trimestre de 2017! Vamos terminar em grande o curso de sumi-e, com uma exposição dos trabalhos dos alunos e da Professora Paula Walker. Já em Abril poderá saber tudo sobre bolsas de estudo e programas de intercâmbio académico para prosseguir os seus estudos ou os estudos dos seus filhos no Japão, recomendamos inscrição o quanto antes! Logo no início de Maio é tempo de abraçar a poesia, ficando a conhecer melhor o género Haiku e a obra do grande Bashô. Ainda em Maio teremos novas leituras, desta vez vamos estudar a obra “O elogio da Sombra”. Chegamos a Junho com uma grande Festa do Japão, com muitas surpresas. Um trimestre cheio da energia da Primavera. Espero encontrar-vos por lá 😉

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Newsletter para Março

Flores, flores, flores! A cultura japonesa diz-nos que Março é o mês para olhar para cima e contemplar as árvores em flor. Vamos esquecer o gelo do Inverno e pensar em novos começos? Por aqui, propomos um mês em que aprofundamos os conhecimentos de Sumi-e e de língua japonesa, mas também abrimos antecipadamente as inscrições para um evento que vai decorrer em Abril. É que já estamos a pensar em quem quer dar o grande salto de estudar ou viver no Japão! Junte-se a nós em Coimbra ou contacte-nos para levarmos os Estudos Japoneses à sua localidade.

PDF aqui -> newsletter-de-marco-2017