1001 palavras

“Uma imagem vale mais do que mil palavras” é uma expressão que já entrou para o nosso dia-a-dia, apesar de a origem ser chinesa e alegadamente de Confúncio. No entanto o seu uso no Ocidente perverteu parcialmente a moralidade subjacente, já que na origem a expressão remetia para a questão da escrita ideográfica e a ligação entre as imagens propriamente ditas e as palavras escritas. Assim, cá por estas partes do mundo, a expressão passou a ser mais ou menos o mesmo que um grito de guerra em defesa das imagens e implicitamente contra os excessos de discurso, como se as imagens fossem mais puras, mais autênticas, mais carregadas de verdade do que qualquer palavreado poderia ser.

Para mim, que para além de historiadora de arte (com uma paixoneta forte por museus e colecções) também escrevo e descrevo com o uso da palavra, esta rivalidade mal resolvida nunca me cativou. Nem uma imagem vale mais ou menos que mil palavras, nem as palavras e as imagens são coisas assim tão diferentes. A imagem (como o nosso querido pintor dos cachimbos já mostrou) é ela própria uma construção narrativa – ainda que não verbal – de discurso, e nenhuma imagem é a realidade em si. Por outro lado, tanto as palavras como as imagens servem a necessidade humana de representar uma impressão que se teve da realidade ou uma ideia que emergiu na mente. Em potência, são ambas comunicação e expressão, e toda a maravilha da arte e da literatura veio depois disso. E mesmo, se me perdoarem o atrevimento, o bom jornalismo.

Mas, claro, uma coisa é discorrer sobre isto e aquilo, e outra é pôr o nosso nome e cara em jogo. Quando comecei a fazer exposições das minhas próprias fotografias, a escrever os meus próprios livros, a dar aulas com as minhas próprias ideias sobre arte, objectos e imagens, a coisa ficou mais, digamos, pessoal. Ao apresentar uma leitura sobre as imagens estava claramente a tornar as imagens em cadeias verbais, a atribuir significados e tudo o mais que elas, só elas, não tinham. Quem me ouvia/lia naturalmente poderia ignorar tudo isso e criar a sua própria interpretação, algo perfeitamente legítimo, mas não seria nunca exactamente o mesmo sem a sugestão/confrontação/aceitação ou recusa da palavra em si, que neste caso lhe estava a chegar por mim. Pôr imagens nas palavras (quando tinha uma teoria a demonstrar) ou palavras nas imagens (quando estava a interpretar ou analisar o que eu via como sendo o seu conteúdo) passou a ser não só uma grande parte do meu trabalho mas também uma fonte de inquietação filosófica. Eu estava a meter-me no domínio do cachimbo e não tinha bem a certeza se essa era a minha praia…

Ainda assim é uma viagem sem retorno, da qual não me arrependo e que todos os dias renovo. Ainda não explorei tudo o que há para fazer nesta aventura de procurar “ler” as imagens – sobretudo as fotografias do Japão ou de arte – e também ainda não cheguei propriamente a uma conclusão no ramo da Antropologia Visual que me permita apresentar um método ou uma tese. Deve ser realmente confuso para quem me lê que eu não tenha nenhum critério do que é o certo e o errado na leitura de uma imagem, pois parece ser essa a preocupação do rol de académicos (e parte da explicação de eu não ter lá muito reconhecimento junto dos mesmos…). A verdade é que me interessa muito mais o processo de descoberta, o espaço que vai de “o que é isto?” até às respostas que obtenho, e depois ir por aí a apresentar a minha proposta sem querer também converter ninguém ou apresentar dogmas. Nas minhas exposições eu mostro as imagens como portas para muito mais do que elas, objectivamente, mostram. Mas também não digo que não se possa intuir e sentir tanto ou mais pela contemplação atenta e sem a bengala da visita-guiada. As coisas que as pessoas vêm nas imagens interessa-me bastante, e é com grande gosto que as oiço (pena que geralmente os visitantes sejam tímidos e os alunos calados), retenho o que elas tiveram a amabilidade de partilhar comigo e não raras vezes acabo por o apontar para reflexão futura.

O que eu não suporto mesmo são os fundamentalismos, sobretudo se forem disfarçados de cientificidade. Do género “isto é isto porque se vê aqui que sim”. Qual é o problema de estender o discurso, de contextualizar a situação, de questionar? Vou dar um exemplo que pode ofender algumas crenças de estimação: os documentários. Amigos, os documentários são discursos como os outros, pode dizer-se o que se quer num documentário e arranjar gravações para o ilustrar. Os documentários, e aliás também as fotografias dos jornalistas, não são isentos de selecção, edição, e contextualização. E nem sequer estou a falar de ferramentas digitais de manipulação de imagem, é muito mais simples do que isso. A mera escolha de certas imagens – paradas ou em movimento – e a arte de as tecer com certas frases pode criar produtos que vão do propagandístico à mentira descarada, passando pelo inocentemente desinformado, pelo equivocamente infundado, e por muitos outros tipos de não-fez-o-trabalho-de-casa disfarçados de outras coisas.  Eu procuro alertar para isto tendo em consideração que eu própria fiz uma-espécie-de-documentário (o do Património de Cristianismo no Japão) contra as visões homogéneas e falseadas de muitos documentários e reportagens que vi por aí.

Mas não quero acabar este artigo com o tom de quem faz investigação em Portugal. Vamos voltar às imagens, à oportunidade que nos dão de fazermos essa pergunta que começou tudo e que começa tudo em cada novo dia: O que é isto? No fundo, é como quando voltávamos a fotografia para ver o que estava escrito por trás, e tudo o que vem depois…

As imagens inundam-nos, a tecnologia ao nosso dispor parece fazer esquecer que podemos maravilhar-nos com elas e com as perguntas que elas nos sugerem, mas podemos. E se a inquietação filosófica for um efeito colateral, que seja bem vindo.

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