Aprender japonês com séries – 1

しろくまカフェ

Shirokuma Café, isto é, O Café do Urso Polar, foi originalmente criado por Aloha Higa como manga e depois adaptado a anime em 2012. Aqui iremos tratar da sua verão como série, neste caso série de animação, já que esta rubrica se dedica a conteúdos audiovisuais. Para darem uma vista de olhos ao manga, e terem uma ajuda a ler o primeiro capítulo, consultem este vídeo da Misa-san.

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A série parte do princípio que os animais (ou pelo menos alguns deles) vivem naturalmente entre os humanos, com um modo de falar, comportar-se e viver que é em tudo igual ao dos humanos. Sendo assim, há um certo urso polar que gere um café, localizado numa simpática casinha de madeira no meio de um jardim. O urso polar é uma personagem muito curiosa, e é precisamente a sua personalidade única e sentido de humor surpreendente que dão encanto a esta série. O urso polar simplesmente adora jogos de palavras, e gozar um pouco com os amigos ao mesmo tempo que mantem uma expressão composta e uma sobriedade genial. Outra personagem central é o pequeno urso panda, um adolescente imaturo que é obrigado a procurar um part-time pela própria mãe, que estava farta de o ver desperdiçar tempo em casa. O panda é um tanto egocêntrico e insensível, mas de algum modo nunca chega a ser detestável porque realmente é adorável na sua imaturidade. Junto com o pinguin (que tem um drama pessoal de natureza amorosa) e outros frequentadores habituais do café, a série vai mostrando o dia-a-dia deste grupo de personagens, ao qual não faltam também os amigos humanos.

Para além de ser uma série de grande qualidade gráfica, com peripécias que nunca deixam definhar o enamoramento inicial e personagens muito consistentes e em constante desenvolvimento, o maior ponto a favor do Shirokuma Café para os estudantes de língua japonesa é precisamente o facto de esta série ter sempre, em cada episódio, momentos divertidos ligados aos jogos de palavras, aos equívocos com a língua ou aos múltiplos significados das expressões japonesas. Para fãs de trocadilhos, ou para quem quer perceber os encantos sádicos do japonês, esta é a série perfeita.

Exemplo dos jogos de palavras típicos desta série – vídeo

Dependendo do nível no qual se encontra o aluno, esta série pode ser vista com legendas (existe disponível com legendas em inglês) ou sem legendas, já que os diálogos são acessíveis a um estudante em nível intermédio/avançado. Contudo, nos momentos dos trocadilhos será melhor fazer pausas e anotar os exemplos dados, para que depois se possa ir criando um caderno de estudo. Deverá notar-se também o estilo de uso da língua em personagens distintas, que têm diferentes idades e posições na sociedade. Por exemplo, o aluno poderá anotar expressões do urso panda e expressões do urso polar (fora dos momentos de humor) e “dissecar” as diferenças. Ao aparecer um outro urso – o urso pardo – existe ainda mais um exemplo contrastante. Neste caso o uso da língua japonesa pelo urso pardo é marcado pelo seu estilo de vida e incluí até alguns regionalismos.

Exemplo dos diferentes usos da língua japonesa entre os três ursos – vídeo

A série Shirokuma Café já tem uns aninhos mas nunca se desatualiza porque os temas são interessantes e intemporais: relacionamento entre indivíduos (sejam pessoas ou animais), relação entre trabalho e lazer, desafios pessoais tais como ter aulas de condução ou aventurar-se a fazer uma viagem, etc. Ao contrário de muitas outras séries de animação, as quais usam demasiadas expressões que rapidamente ficam “datadas”, quem aprende japonês com o Café do Urso Polar não corre esse risco. Quando há formas específicas de falar estas dependem mais da personagem em questão do que da data (se é a senhora doméstica de meia-idade/mãe do urso panda ou se é um rebelde roqueiro que se aventura pelo mundo de moto/urso pardo) e esse é precisamente um ponto a favor da série, já que apresenta de modo muito natural como a língua japonesa tem variações específicas para determinados grupos/indivíduos conforme o seu papel na família e na sociedade em geral. Mais uma vez, para que seja uma experiência pedagógica, o aluno deverá tirar anotações, pausando o episódio sempre que necessário, e confrontar as suas dúvidas com os seus manuais e dicionários, ou melhor ainda, com o seu professor/a de língua japonesa.

É possível aprender japonês com séries?

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Na aprendizagem de uma língua estrangeira é muito importante procurar acima de tudo a “imersão”. A “imersão” é o processo deliberado de procurar recriar a experiência que uma criança pequena tem ao aprender a sua língua nativa, e apesar de não ser 100% garantido para a aquisição de uma língua estrangeira em idades mais tardias, não deixa de ser o método mais próximo daquele a que o nosso cérebro está habituado, com evidentes sucessos em várias pedagogias. Contudo, criar experiências imersivas para a aprendizagem de uma língua é bastante mais difícil do que parece à primeira vista, algo que todos os professores reconhecem, já que a maior parte deles se esforça bastante para que isso seja possível.

Uma das estratégias para a aquisição da língua japonesa é a audição de diálogos e interações entre falantes nativos ou entre um falante nativo e um estrangeiro, sobretudo em contextos quotidianos e enquadrados por alguma espécie de estrutura unificadora. Por exemplo, vários programas seguem uma personagem fictícia que se encontra subitamente no Japão e com poucos conhecimentos prévios de japonês, pelo que vai aprendendo a língua em contexto de escola ou trabalho, numa saída com amigos, numa reunião de escritório, etc. Os exercícios que o aluno deve realizar passam por ouvir atentamente os diálogos, repeti-los e eventualmente responder a questões sobre o assunto em questão. Apesar de estes exercícios serem muito importantes, e por isso mesmo incluem-se sempre alguns deste género nos manuais oficiais de língua japonesa, os estudantes tendem a estranhar-lhes a superficialidade, a cadência pouco natural da fala destes atores-de-voz bem treinados, as próprias circunstâncias e conteúdo das conversas, e – não raramente – consideram estes exercícios totalmente inúteis quando chegam ao Japão para estudar ou trabalhar e têm de se integrar em contextos com falantes nativos de japonês.

Existe ainda uma outra razão para que estes exercícios possam não ter o efeito desejado nos alunos (ou seja, o efeito previsto por quem criou os manuais), a qual se prende mais com o quão ativo é o papel do aluno na construção da sua aprendizagem. Os manuais japoneses, quando realizados no Japão e por equipas editoriais japonesas, tendem a “esquecer-se” que os alunos não asiáticos de japonês (e sobretudo os europeus) têm implementado nas suas escolas pedagogias diametralmente opostas, e que por isso os alunos (e mesmo os adultos que já não são estudantes) se relacionam com as matérias a aprender de modo completamente diferente. No Japão o ciclo de ensino obrigatório não se foca na construção ativa do saber, na formação de um pensamento crítico e/ou subjetivo, nem na argumentação. Em vez disso os alunos japoneses realizam sucessivos exercícios de repetição, chegando ao extremo de terem vários anos de língua inglesa no currículo e conseguirem responder plenamente a questões de gramática mas sem a mínima capacidade de encetar uma conversação simples ou entender o discurso de um falante nativo de inglês. Por outro lado, o aluno – digamos – europeu, valoriza o engajamento com o exercício, a capacidade de compreender no imediato que está a criar novas competências e a possibilidade de verificar logo como essas competências o levam a compreender melhor uma realidade mais vasta, realista, e dentro da qual se pode imaginar a ele mesmo.

Por tudo isto, têm aparecido nos últimos anos vários artigos em sites e blogs (com níveis de profundidade variáveis…) sobre de que modo é que conteúdos multimédia tais como séries, filmes, e até músicas podem contribuir para a criação dessa ambicionada proficiência em língua japonesa. A esmagadora maioria dos referidos artigos resume-se a listas de séries ou filmes, com um comentário muito breve do assunto que a mesma trata, e destinam-se ao público que já gosta de ver esses conteúdos (quer esteja a aprender japonês ou não) e que pretende – ainda que inconscientemente – que o tempo de despende a vê-los não lhe pareça desperdiçado. Ou seja, está implícito que a audiência tem um certo sentimento de culpa, eventualmente uma leve noção de que incorre no pecado de procrastinação, e naturalmente quem escreve os conteúdos desses artigos explora essas motivações para “cozinhar” uma listinha apetecível de recomendações, as quais são elencadas mais pela sua relação com os patrocinadores do referido artigo do que em consequência de uma visualização criteriosa das mesmas. Entenda-se que não se pretende aqui julgar as motivações de ninguém, nem determinar a favor ou contra de um passa-tempo tão inofensivo como a visualização de séries. Pelo contrário, pensamos que o prazer de mergulhar no mundo ficcional da narrativa multimédia é precisamente a razão pela qual as séries e filmes podem de facto ser usadas como uma ferramenta viável para aprender a língua japonesa, pois sem esse poder de atração não há imersividade, e consequentemente não se atingem os resultados pretendidos.

É com isto em mente que inauguramos neste blog mais uma rubrica, desta vez mensal, pois queremos produzir realmente artigos que ajudem os alunos e os professores, o que exige da nossa parte “fazer o trabalho de casa”. Esta rubrica irá apresentar não só as séries ou filmes que nos pareçam úteis para os alunos de língua japonesa mas o modo concreto como podem aprender algo com cada uma delas. E, escusado será dizer, aceitamos com muito gosto as vossas sugestões ou perguntas, que nos poderão chegar por email: umlongoveraonojapao@gmail.com

 

Cultura & História + Artes & Ofícios – compilação mês de Setembro

Aos domingos, a partir de Setembro, publicam-se pequenos artigos sobre arte, cultura e história do Japão, exclusivos da página de Facebook e do blog, criados por Inês C. Matos (historiadora de arte). No final do mês os artigos são apresentados no blog, em formato de compilação, mas sem os links para vídeos e outros conteúdos audiovisuais (para os ver visite o Facebook de “Um longo Verão no Japão”).

6.9.2015

“Tansu” é uma tipologia de mobiliário específico do Japão. A região mais famosa pela sua produção é Sendai, pelo que por vezes se chama a esses objectos Sendai-Tansu. O “tansu” começou a ser produzido na era Genroku (1688–1704) e, quando comparamos essa cronologia com os eventos do período imediatamente anterior, podemos ver que o estilo deste móvel assemelha-se um pouco aos móveis designados “contadores” que enriquecem as colecções de arte asiática dos museus portugueses.

Tal como o “contador”, que está tão ligado às condições de vida itinerantes (tem pegas, gavetas secretas para a contabilidade dos mercadores, não tem pregos nem ferros por dentro para se adaptar aos climas húmidos e viagens de barco, etc), o “tansu” também tem múltiplas gavetas, pegas laterais, a sua forma compacta e resistente é a de uma caixa, e o material predominante é a madeira. Os primeiros “tansu” assemelhavam-se muito a arcas europeias, com uma ferragem pesada e grande que fechava a tampa da arca, com um tampo plano e com uma forma baixa e larga (ainda sem muitas gavetas). Alguns tinham rodas, como os Nagamochi Kuruma, sendo esta a tipologia que mais se relaciona com a presença dos europeus no sul do Japão uma vez que os Nagamochi Kuruma foram registados como parte do inventário dos bens que existiam em Dejima (uma ilha artificial na costa de Nagasaki, criada para residência dos portugueses e, depois destes abandonarem o Japão, usada para residência dos Holandeses).

Ao longo de período Edo os “tansu” foram refinando o seu estilo, tendo-se tornado mais decorativos no período Meiji – precisamente porque as leis que restringiam a posse de bens sumptuosos foram afrouxadas.

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13.09.2015

“Kokeshi” é o nome pelo qual são conhecidas as peças de artesanato japonês que se parecem com pequenas bonecas de madeira. Na verdade as “kokeshi” não são realmente bonecas, pois não têm braços nem pernas. Trata-se apenas de um cilindro de madeira (por vezes oco) e uma bola como cabeça. A simplicidade da forma e da decoração destas bonecas fez delas um dos encantos do Japão, amadas tanto por japoneses como por turistas.

As “kokeshi” começaram a ser produzidas entre 1600 e 1700 na prefeitura de Miyagi, e supôe-se que a sua associação às termas (onzen) perto de Zaoo se deu quando começaram a vender-se como um “souvenir” regional. A sua popularidade cresceu a partir do final do século XVIII, precisamente devido ao hábito de visitar termas e trazer pequenas peças de arte dos artesãos locais. O aspecto adorável das “kokeshi” veio corresponder à imagem idealizada de uma eterna criança, à memória de ter prazer e divertimento sem culpa, e enfim ao edonismo da sociedade da época.

No entanto o mais provável é que as “kokeshi”, tal como muitos outros objectos de madeira com forma humana (no Japão e noutras culturas) tenha começado por ser um objecto com funções psico-mágicas, associada ao espírito de uma menina desejada ou falecida. A sua pintura floral e as características esteriotipadas da pintura facial parecem sugerir que não representa realmente um ser humano nem uma “boneca” (no sentido de ser um brinquedo) mas sim um objecto simbólico.

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20.09.2015

Hoje vamos conhecer uma técnica artística japonesa chamada Kintsugi. Kintsugi é ao mesmo tempo uma forma de arte e uma estratégia para remendar cerâmica partida. Quando uma peça de cerâmica se partia era hábito usar grampos de metal para voltar a juntar os pedaços, um pouco como funcionam os clips de hoje em dia nas folhas de papel. Contudo no Japão existia também uma substância proveniente da resina de uma árvore que, para além da laca, permitia fabricar uma cola resistente. Assim, começaram a reconstruir as tigelas, potes, vasos e pratos de cerâmica partidos com esta cola resinosa. A cola em si é eficiente, e também resistente à água, mas a peça não parecia finalizada. Então seguiu-se a prática de soprar pó de ouro sobre a substância resinosa (como se fazia na decoração de caixas lacadas), cobrindo assim os riscos entre as partes coladas.

Ao enfatizar a zona onde se deu a ruptura da peça e tornar o “defeito” num ornamento, a peça ganha outro aspecto. A marca de ter sido quebrada não é escondida, em vez disso torna-se num padrão de linhas de ouro, o que dá mais valor ao objecto tanto estética como materialmente. Não temos exactamente a certeza quando é que o Kintsugi começou a fazer-se no Japão mas sabemos que no século XVI já era reconhecida pelos Japoneses como uma técnica específica do seu território, profundamente ligada à estética do budismo zen e a princípios fundamentais da filosofia nipónica tais como “wabi-sabi”.

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27.09.2015 (antecipação)

Aos domingos é tempo para um post sobre arte, cultura e história do Japão.

Tive a sorte de ver uma conferência de Christoffer Bovbjerg no ano passado, logo depois de ele ter concluído o seu doutoramento e fiquei a admirar este especialista de estudos japoneses pela sua abordagem em relação à história do Japão e, de modo geral, pela sua atitude como académico. Recentemente descobri que uma das suas conferências (ainda anterior à que eu vi) está integralmente no youtube. Para quem deseja dedicar-se aos estudos japoneses é imperdivel! Nesta conferência ele fala dos períodos nos quais tradicionalmente se divide a história do Japão e o que caracteriza cada um deles. Mas, e aí está a vantagem, mantêm o espírito crítico em relação ao próprio modo de periodizar a história do Japão. É uma conferência muito interessante e com uma progressão rápida. Deve ter-se em consideração que está gravada sem legendas, em inglês, e infelizmente eu não tive tempo de a legendar para português, mas creio que está acessível a estudantes a partir do ensino superior pois a qualidade do som é boa a a dicção bastante clara.

https://www.youtube.com/watch?v=m0gDqnwJjMQ