Aprender japonês com séries – II

Para saber mais sobre os objectivos desta rubrica por favor leia este post. Para saber mais sobre a primeira recomendação desta rubrica, que é uma série de animação, leia este post.

Como a principal preocupação aqui é ajudar os nossos alunos de língua japonesa e todos aqueles que estão a procurar aperfeiçoar o seu japonês, vamos focar-nos agora em recomendações práticas e metodológicas. Independentemente da idade, género, preferências e gostos do aluno, é importante ter em mente que o primeiro requisito para um estudo bem sucedido é a metodologia. E se a palavra o incomoda basta substituí-la por “atitude”. Se o aluno simplesmente vê as séries, passivamente, colherá apenas benefícios mínimos da experiência imersiva da qual falámos no primeiro post desta rubrica. Por outro lado, se a sua “atitude” for activa, a série servirá para lhe abrir as portas da língua japonesa sem contudo deixar de lhe proporcionar prazer/entretenimento. É certo que pode ser incómodo, ao início, instrumentalizar assim uma série e interromper os episódios constantemente, mas ao entender as subtilezas de discurso e de drama que antes lhe estavam vedadas irá desfrutar ainda mais do programa que está a ver.

Para sabermos mais sobre esta “atitude” vamos começar por uma expressão japonesa:

テレビを見ることは受動的活動である。(Ver televisão é – por definição – uma não-actividade / é passivo.)

A palavra-chave da expressão acima é 受動的  (leitura: じゅどうてき), que transmite a ideia de não-acção, passividade, contemplação, quietude, sentido acrítico.  Pode ser o ideal para um passeio no bosque, a meditação zen ou a visita a uma galeria para contemplar obras de arte, mas não é considerado algo positivo quando o observador está exposto aos media e muito menos quando está a procurar aprender alguma coisa com eles. Por isso, em vez de 受動的, o aluno deve procurar ser 能動的 (leitura: のうどうてき), isto é, activo. O primeiro kanji ( 能 ) diz respeito à habilidade, talento ou capacidade, e o segundo kanji ( 動 ) apresenta-nos os valores (ambíguos) do movimento, mudança, choque ou convulsão. Ter uma atitude 能動的 não é só ser activo mas também saber usar a dinâmica da actividade para enriquecer ainda mais os talentos que já possuí, usando por isso a habilidade que já tem de modo incipiente para a aumentar exponencialmente.

A partir deste ponto é necessário fazer uma diferenciação na metodologia: de um lado há aqueles que necessitam de legendas na sua língua materna (ou inglês, que é mais frequente), e do outro há aqueles que avançam mais se virem as séries com legendas em japonês. O “segredo” de um estudo bem sucedido é a adequação das capacidades que se pretendem adquirir com aquelas que já se têm, pelo que as ferramentas a pôr em prática são diferentes conforme o nível de proficiência do aluno.

Para um aluno que veja a série com legendas na sua língua (ou numa outra língua que domina bem) também se aplica o que se dirá a seguir para os alunos mais avançados, mas com ligeiros ajustes. O aluno de iniciação pode fazer, por exemplo, um dicionário de expressões coloquiais, ou mesmo um quadro de falas típicas de cada uma das personagens, o que o ajudará a compreender o discurso quotidiano e a correspondência entre perfil da personagem e nível da linguagem utilizada. Para que esta estratégia funcione é importante que as legendas tenham sido bem colocadas, o que infelizmente nem sempre acontece nos serviços de fan-sub (fãs que criam as legendas de modo amador, colocando assim as séries disponíveis em sites de acesso gratuito).

Para o aluno que já consegue acompanhar uma série com legendas em japonês, deverá fazê-lo. Mesmo em serviços de visualização tão comuns hoje em dia como o Netflix e o Hulu essa funcionalidade existe. Aliás, ao escolher as legendas em japonês, o número de séries disponíveis será automaticamente seleccionado, já que as opções variam de país para país. A principal vantagem de estar a ler as legendas em japonês ao mesmo tempo que se ouve é que essa experiência é muito próxima da experiência escolar e exige logo uma postura mais concentrada (em vez do “binge-waching”). O aluno tem uma confirmação instantânea do que conhece e do que não conhece no vocabulário e pode fazer as pausas necessárias para criar um dicionário de novo vocabulário adquirido. Mas  fazer “pausa” uma vez não chega, é necessário voltar atrás tantas vezes quantas necessárias e ouvir de novo o vocabulário ou frase recém-adquirida, desta vez com os olhos fechados para se concentrar na aquisição da memória sonora.

Escusado será dizer que este exercício corre melhor quando se faz sozinho, a menos que dois ou mais alunos se encontrem exactamente no mesmo nível e com as mesmas características de aquisição da língua japonesa, o que é extremamente raro. Mesmo entre alunos que tiveram aulas na mesma turma desde o início há aqueles que aprendem mais pelo ouvido, os que se fundamentam na gramática, os que têm a escrita mais avançada que a pronúncia, etc. Por isso, essencialmente, o exercício em si é para se fazer a sós e com a atenção indivisa. Depois, numa segunda ou terceira visualização do episódio, já pode fazê-lo com amigos/colegas e até eventualmente desfrutar mais de outros elementos que ficaram em segundo plano quando estava focado em aprender a língua, como por exemplo os cenários ou a banda sonora.

Para além da abordagem 能動, ou mais exactamente por causa dessa abordagem, é importante escolher séries em que o uso da língua seja realista. Note-se, não se está aqui a dizer que a série em si tem de ser realista, pois até escolhemos apresentar como primeira sugestão uma série em que os animais falam… Mas é realmente importante que a referência que vai ser usada para estudo seja um reflexo do uso da língua japonesa actual, quotidiana e correcta. Séries que sejam até extremamente realistas – por exemplo uma série de tema histórico que se foque em Sengoku Jidai (no período dos Reinos Combatentes, séc. XV d.C) – podem ter muito interesse para um certo tipo de alunos, mas se os diálogos são todos num japonês histórico ou arcaico isso não vai ajudar quase nada o aluno que pretende adquirir conhecimentos sobre a língua japonesa no século XXI. Na verdade, no que diz respeito a expressões coloquiais ou mesmo gíria, até conteúdos tão recentes como os anos 90 do século XX podem ser demasiado “datados”. Por exemplo, a expressão ちょうベリバア, em que ちょう é o prefixo informal para “super” e ベリバア é o neologismo com origem no inglês “very bad”, foi uma expressão típica do movimento gyaru dos anos 90 mas quem a usar em voz alta hoje em dia irá parecer muitíssimo desactualizado, um pouco como se dissesse “bué” (que também esteve na moda na cultura juvenil em Portugal há alguns anos atrás). Consequentemente, é preciso ter cautela com o vocabulário das chamadas “expressões idiomáticas” e com expressões datadas. Pode ser divertido descobri-las, mas não seria nada divertido usá-las no contexto de conversação com alguém que tenha o japonês como língua nativa.

O terceiro aspecto que necessitamos de apontar aqui é a questão da aquisição de hábitos, ou seja, “a repetição faz a perfeição”. O aluno deverá prever que não vai aprender muito nem colher imediatamente os benefícios da primeira vez que faz este exercício, e talvez até nem da primeira série que “estuda” desta maneira. Com efeito, pode até nem ser pela falta de experiência neste tipo de exercício mas sim por critérios que dependem mais da escolha da série (actores, tema, duração, etc). Contudo, é importante ter consistência e praticar mesmo assim. Normalmente depois de alguns episódios já se sentirá muito natural a fazer este estudo. Portanto, a primeira série que se escolhe para praticar “aprender japonês com séries” deverá ser mais para praticar o método em si do que pelo que pode aprender com a série, e nesse caso deverá até escolher uma série com um japonês muito básico. Numa segunda série poderá aumentar o grau de dificuldade e assim sucessivamente.

Recomendamos que experimentem a série ビューティフルレイン (Beautiful Rain), porque a maior parte dos diálogos são entre um adulto e uma criança (pai e filha) e por isso são muito simples na sua estrutura e com um vocabulário muito acessível. Esta série também não está “datada” porque é de 2012 e o tema é um dos mais comuns nas séries do tipo “para toda a família”: como lidar com a doença debilitante e/ou fatal no seio das relações familiares. Se já vê séries japonesas saberá como este argumento é comum, essencialmente porque permite apresentar grandes momentos dramáticos e explorar o tema da dependência como fundamento do amor (algo muito especificamente nipónico).

jdrama beautiful rain

 

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